Belezas emprestadas

Unknown

01/09/2017

Isto É

Logo no início de seus Ensaios, Montaigne alerta que, “se fosse para buscar os favores do mundo, teria me enfeitado de belezas emprestadas”. Com isso ele quis dizer que, se fosse para agradar, falaria o que os outros já tinham falado e causado agrado. Repetiria obviedades plenamente aceitas pelo senso comum.

As belezas emprestadas são abundantes no Brasil de hoje. E contaminam todas as narrativas. Em especial, a das celebridades, que se sentem compelidas a se posicionarem sobre o que não entendem e não têm a humildade de reconhecer sua ignorância. Habitam, em um reino rarefeito de reflexões, a dimensão do “com certeza”. Digerindo factoides regurgitam bons-mocismos e soltam fogos de artifício sobre temas dos quais nada sabem. São opiniões de artifício.

Montaigne também recomendava ao leitor que abandonasse o seu livro porque o conteúdo tratava apenas do que ele pensava: “Sou eu mesmo a matéria do meu livro.” Quantos teriam, no meio da nossa cultura pop, a arrogante humildade que Montaigne teve ao assumir a carga de suas opiniões sem se importar em agradar? No Brasil de hoje, vejo muito poucos. Alain de Botton, filósofo contemporâneo, reconhece que teve, quando jovem, esse sentimento de querer agradar compulsoriamente. Nossa sociedade de celebridades está doente dessa compulsão. Bem fez o cantor sertanejo Luciano, da dupla com Zezé di Camargo, em antológica entrevista à Folha de S.Paulo, anos atrás, ao afirmar que temia dar opinião sobre temas que não entendia. Como celebridade, não era prudente se posicionar sobre tudo apenas para agradar ao senso comum. Preencher o nada com o nada.
Prudência não é artigo procurado.

Está empilhado nas prateleiras da vida. Já o “bom-mocismo”, os factoides, as meias verdades e as mentiras sinceras são processadas intensamente. Como vivemos tempos de reação e não de reflexão, as belezas emprestadas são garantia de sucesso instantâneo. São mantras repetidos e de fácil digestão. O que é complexo e incômodo, como pensar, não é fácil. Pensar, para muitos, significa ter a sua própria — e muitas vezes insuportável — companhia. Mais fácil é se apropriar do que já foi testado pelo “não é possível que…” e lançar mão do “com certeza”.

Assim, a pessoa se poupa da circunstância desagradável de estar consigo mesma, com suas dúvidas e, sobretudo, com a própria ignorância. Agora, de forma pretensiosa, busco atacar as belezas emprestadas. Mas faço a ressalva de que o que escrevo não é regra de militância de vida para ninguém. Tampouco me arvoro como o detentor de “belezas próprias”. Pouco as tenho. Apenas destaco que o caminho do entendimento das coisas é mais intenso, dolorido e solitário do que faz crer a sabedoria pop das celebridades.

Enviado por Murillo de Aragão 25, setembro, 2017 | 15:39

Maquiavel passou por Brasília

 

machiavelli

31/08/2017

Blog do Noblat

De tanto falarem nele, Maquiavel apareceu em Brasília. Resolveu conferir se seus ensinamentos estão sendo seguidos. De cara, surpreendeu-se com o abundante número de “Príncipes” batizados de caciques, coronéis, oligarcas, entre outros nomes, diferentemente das cortes na velha Itália, que se moviam em torno de um único Príncipe.

Percebeu ainda que, aqui, muitos são os polos de poder, sem que isso signifique democratização. E identificou na capital do Brasil uma luta de poder multipolar bem mais complexa dos que as disputas entre o Reino de Nápoles, o Ducado de Milão, os Estados Pontifícios e a República de Veneza.

Prosseguindo em sua observação, Maquiavel verificou que no Distrito Federal, mesmo passados cinco séculos da publicação de seu clássico livro (não à toa intitulado O Príncipe), o que alimenta a política é a conquista e a manutenção do poder, conforme já denunciava no livro. Independentemente de outros aspectos. E que, ainda conforme preconizou, muitos políticos se valem de todos os meios para se manter no comando.

Assim, constatou que a sua lição de que os fins justificam os meios foi muito bem aprendida no Brasil.

Ao tomar conhecimento da Operação Lava-Jato, o pensador, que nasceu em 1469 em Florença (onde também morreu, aos 58 anos), ficou atordoado com os números e a complexidade das relações entre empresas privadas e poder público no Brasil. Ficou ainda mais chocado quando soube que o que foi descoberto em torno do Petrolão não passa de uma das pontas de um imenso iceberg.

Ouvindo os relatos sobre a investigação, disse que os Príncipes daqui exageram no tocante a não serem limitados pela moralidade. Teria inclusive sugerido às minhas fontes que até para ser imoral deve existir um limite. E que o limite é o bom-senso, artigo em falta no país.

Sabendo que a Lava-Jato tem sangrado o mundo político e que este, pelo seu lado, não enfrenta a questão de frente ou não busca uma solução, Maquiavel pensou em sugerir uma ampla anistia aos políticos, desde que eles fossem banidos da política e pagassem uma multa. Ignorou comentários irônicos de que ele não entende de Brasília e que por aqui, como a esperança é sempre a última que morre, é melhor ir empurrando tudo com a barriga.

Convidado a ir a Curitiba para conhecer alguns dos protagonistas da força-tarefa da Lava-Jato, Maquiavel declinou do convite. Temia que em um surto de ativismo judicial pudesse se indiciado nos inquéritos e ele ficasse impedido de voltar ao Além. Vá lá que alguém o delatasse?! Preferiu não arriscar.

Paradoxalmente, observou que os políticos brasileiros são lenientes com os adversários: o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã. E vice-versa. Ele acha que é assim mesmo em política, só que não se pode exagerar.

Ouviu, com espanto, que inúmeros aliados da ex-presidente Dilma Rousseff foram mantidos em cargos de confiança após seu impeachment. Não souberam explicar-lhe se por desinformação, imprudência ou os dois ao mesmo tempo. Para ele, no entanto, é intolerável que dissidentes não sejam severamente punidos e que inimigos não sejam sumariamente afastados de suas posições com a mudança de governo.

Nesse sentido, viu que os políticos no Brasil de hoje não levam em conta a história. Que a maioria mal sabe o que é história – pensa que é o que está no jornal de ontem e nem desconfia que ela pode ensinar.

Ficou espantado, por exemplo, ao saber que o ex-presidente Fernando Collor, mesmo tendo sofrido impeachment, está voltando ao banco dos réus sob suspeita de corrupção. E deduziu que nesse caso a história não se repete como farsa; a história é a própria farsa.

Viu ainda que o Brasil e os brasileiros vivem em uma espécie de presente intenso que se limita ao que é visível. E, em sendo óbvio, é objeto de reação e não de reflexão. Daí o desprezo pela história e o descuido com o futuro.

O que fez o pensador concluir que poucos políticos brasileiros de hoje se encaixam nos tipos de inteligência que ele admirava.  Segundo ele, uma verdadeira inteligência entende por si mesmo o que se passa. Poucos por aqui estão entendendo – por si mesmo – o que se passa.

Um segundo tipo é capaz de discernir a partir do que os outros entendem. Igualmente, poucos ouvem opiniões independentes.

Existe um terceiro tipo não é capaz de entender por si nem entender pelos outros. É um inútil.

Maquiavel reconheceu a inutilidade da maioria dos políticos que conheceu em Brasília. Soube que a imensa maioria dos que passam pela cidade nada deixa. Ou, quando deixa, são histórias tristes para a cidadania.

Notou ainda a omissão da sociedade, que não quer se meter nos negócios públicos. Prefere manipulá-los a distância.

Vendo a confusão instalada, lembrou que, para ele, existem duas formas de combater o inimigo: com a lei e com a força. Não viu, no Brasil, o mundo político reagindo nem com um nem com outro ao desafio das investigações.

Percebeu que as forças judiciais da República de Curitiba são bem mais maquiavélicas que as do Reino da Fantasia de Brasília, já que usam tanto a força quanto a lei.

Instado a comentar sobre o governo Michel Temer e seu ímpeto reformista, lembrou-se de uma frase de seus escritos: “Nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de ter êxito ou mais perigoso de manejar do que dar início a uma nova ordem das coisas. O reformador tem inimigos em todos os que lucram com a velha ordem das coisas e apenas defensores tépidos nos que lucrariam com a nova ordem.”

Reparou que poucos parlamentares defendem com vigor as reformas propostas pelo governo. Mesmo com o Estado “bancorotto”, governo e políticos dançam em meio a uma chuva de meteoritos torcendo para que nada os atinja.

Por fim, ao intuir a ausência de uma estratégia clara de comunicação por parte do governo, Maquiavel novamente lançou mão de uma frase sua: “Governar é fazer acreditar.” Lamentou que o governo, como um todo, não acredite em si mesmo nem tenha ideia do tamanho de seu poder. E que tampouco saiba dizer direito o que faz.

Perguntado se toparia dar consultoria ao Palácio do Planalto, respondeu que não. Temia que a Andréa Sadi noticiasse que ele foi recebido fora da agenda. Assim, preferiu voltar para a sua Florença.

Enviado por Murillo de Aragão 25, setembro, 2017 | 15:20

O inimigo não mora ao lado: mora e dorme na mesma casa partidária

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23/08/2017

O Tempo

Certa vez, escrevi que a derrota de 2002 era a batalha de Stalingrado do PSDB. Marcaria o início de um longo período que resultaria em sucessivas derrotas. Nas eleições de 2006, 2010 e 2014 perdeu para o PT. Entre outros motivos, por suas incongruências e fragilidades.

Mais uma vez, o PSDB começa a se atrapalhar. E a reafirmar que o inimigo não mora ao lado: mora e dorme na mesma casa partidária.

O programa partidário do PSDB na semana passada marcou o início da campanha eleitoral. Tasso Jereissati e Geraldo Alckmin, respectivamente senador e governador de São Paulo, entenderam que o afastamento do partido é essencial para viabilizar a candidatura do segundo à Presidência.

Sem o afastamento, entendem que Alckmin estaria contaminado pelos problemas do governo Temer. É uma decisão pragmática. Ambos pensam que o afastamento deve ocorrer o mais rápido possível para que a contaminação seja também a menor possível.

No entanto, o movimento não é fácil. Parte expressiva do PSDB defende a permanência no governo. Alguns tucanos consideram que é tarde para desistir do governo e que a contaminação é irreversível. Pensam que o melhor é apostar que a economia pode melhorar um pouco e dar um gás ao governo.

Mesmo reconhecendo que o governo Temer é um fardo pesado de carregar, creem que, em sobrevivendo às novas denúncias, ele poderia chegar a bom termo em 2018. Ou, pelo menos, construir uma coalizão competitiva.

A complexidade do movimento está também na incerteza de quem tem a maioria para decidir para onde o PSDB vai. Há quem pense que Jereissati pode ser afastado do partido por conta de suas atitudes, consideradas independentes demais. Aécio Neves, por seu lado, articula a volta ao comando e, para tal, pode recompor o diálogo com o governo.

Outros acreditam que Jereissati e Alckmin teriam força para impor um novo rumo. Porém, o que fazer com os ministros do PSDB no governo? Ficam ou saem? Imaginem a situação: o partido rompe com o governo, mas os ministros ficam. A lógica que move Jereissati e Alckmin ficará muito prejudicada. Como sempre, o PSDB é um partido confuso.

Outra questão relaciona-se ao apoio do partido à agenda das reformas. Declarações de Jereissati são simpáticas à agenda. Mas quem terá a disposição de apoiar uma agenda impopular sem o bônus de ser governo?

A tradicional dificuldade de o PSDB posicionar-se continua pesando sobre os ombros de sua direção. O certo é reconhecer que o programa veiculado abriu uma ferida grande na base governista e dentro do próprio partido.

No final das contas, o movimento de Jereissati e Alckmin foi um erro. Primeiro, porque a decisão de abandonar ou não o governo deveria ter sido adotada há mais tempo. Segundo, porque as acusações que fazem ao governo Temer cabem muito bem no figurino tucano quando governo. Terceiro: ao acusar o governo, o programa ataca – indiretamente – Aécio Neves.

Se agir com cabeça e unidade, o PSDB poderá ganhar as eleições de 2018. Porém, ao permitir que o açodamento tome conta do processo decisório e que as mensagens não expressem a maioria do partido, corre sério risco e volta a cometer os erros que reduziram suas chances nas últimas corridas eleitorais.

Outra questão é a de que o PSDB deve, acima de tudo, entender que a velha prática da preferência por antiguidade na fila de candidaturas não vale nada em tempos de eleições digitais. Os tempos são outros, e o eleitor quer outra narrativa e, obviamente, outra prática política.

Enviado por Murillo de Aragão 23, agosto, 2017 | 15:48

Uma reforma atrás da outra em meio a uma corrida de obstáculos

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16/08/2017

O Tempo

Se contarmos apenas os dias úteis da atividade legislativa – terça, quarta e quinta-feira –, o governo Temer tem só mais cinco meses de vida. Tempo suficiente, no campo da agenda do Congresso, para votar não mais do que meia dúzia de propostas importantes, embora tenha uma lista de quase 20 votações significativas pela frente.

No caso de reformas, que em geral pedem mudança constitucional com três quintos dos votos na Câmara e no Senado, talvez só consiga avançar três propostas. O governo é ambicioso e fala em cinco – previdenciária, trabalhista, política, tributária e fiscal.

A gestão Temer faz questão de autoproclamar-se “governo das reformas”, mas boa parte delas carece dos elementos relevantes que, de fato, caracterizam uma autêntica reforma. Com oito meses de tramitação, a reforma da Previdência limita-se ao estabelecimento da idade mínima; a trabalhista pede uma medida provisória complementar para se tornar efetiva.

Algumas medidas, no entanto, mesmo que não possam ser carimbadas de reformas, na prática equivalem a elas, como a emenda do teto de gastos, que alterou fortemente as regras de execução do Orçamento.

A grande dificuldade para aprovar um número grande de reformas é o fato de o governo não estar associado a um projeto político. Fernando Henrique pediu oito anos de mandato para modernizar a economia, depois de eliminar a inflação.

Lula postulou outros oito para resgatar o que se chamava na época de “dívida social”, enquanto Dilma Rousseff prometia continuar essa tarefa, mas mal conseguiu tomar posse. As mudanças que pôs em prática, como a desoneração da folha de pagamento, resultaram em motores da crise que levaram a sua derrubada e hoje obrigam Temer a desfazê-las.

Todos esses três presidentes citados foram eleitos. Consequência de um impeachment, o governo Temer tem sua legitimidade sistematicamente contestada, o que dificulta um calendário de realizações, apesar de ter tido êxito na aprovação das reformas mais impopulares, como a trabalhista, e prometer que vai fazer uma abominada: a previdenciária.

A rejeição da denúncia contra Temer mostrou que o governo é forte na Câmara dos Deputados. O resultado também aponta uma tendência de rejeição de novas denúncias que vierem da Procuradoria Geral da República. Nesse sentido, a opinião do Legislativo só mudará caso uma nova denúncia venha com novos elementos e provas robustas.

Para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o desfecho não foi bom para as reformas pelo fato de que a manifestação a favor de Temer não alcançou o quórum equivalente ao de aprovação de emendas constitucionais (308). De certa forma, surpreendeu o número de votos contra Temer. Esperavam-se mais abstenções.

Outra surpresa foi a ausência de manifestações relevantes. O tema não mobilizou. A Esplanada dos Ministérios estava vazia. A guerra foi travada nas redes sociais. Nem mesmo o apoio explícito de fortes setores da mídia à aprovação da denúncia foi capaz de mobilizar os eleitores. O desafio que se apresenta para o governo é o de recuperar votos do PSDB para a reforma previdenciária.

Terá também que administrar as pretensões de quem votou a favor de Temer em tomar espaço do PSDB no governo. Outro desafio é o de estabelecer uma estratégia de comunicação que neutralize a oposição de setores da mídia ao Planalto. Michel Temer está consciente de que o governo comunica mal e não usa o seu potencial para angariar mais apoio junto à população.

Enviado por Murillo de Aragão 22, agosto, 2017 | 16:46

O benefício da dúvida

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18/08/2017

Isto É

O jornalista Reinaldo Azevedo cunhou uma frase extraordinária para nossos tempos: “Um cientista rigoroso tem dúvidas. Um idiota, nunca!”. Quando falamos sobre o benefício da dúvida devemos, obviamente, considerar que o benefício deve se estender também a quem reflete sobre o tema.

Diariamente muitos constroem certezas sobre as frágeis bases do preconceito, do instinto e da mera boa vontade. Opiniões são emitidas como carimbos da burocracia infinita somente para alimentar uma cadeia infindável de besteiras. A ausência de dúvida – sem as devidas evidências que configurem uma certeza inoxidável – é típica de nossos tempos de “não é possível”.

Não é fácil navegar em meio a tantas opiniões superficiais. Porém, tempos complexos exigem soluções simples de natureza complexa. Trata-se de um paradoxo, mas viver é paradoxal. Imagine, por exemplo, o momento atual. Que dúvidas devemos ter em relação a ele? A primeira delas é sobre se vivemos dentro de uma batalha ética ou não. Em caso positivo, que valores devem ser destacados? A luta envolve que agendas? São agendas transparentes? Sim ou não? Não há como examinar nossa realidade sem ter muitas dúvidas. Apenas os idiotas têm certezas. E existem muitos por aí que propagam certezas de fácil digestão. Certezas fast food.

Outros não são tão idiotas, mas manipulam eficazmente os idiotas. Oferecem o “McDonald feliz” do bom-mocismo como se fosse a reafirmação de valores éticos. Resultam em nada mais do que flatos opinativos, que, mesmo malcheirosos, agradam à patuleia consumidora das certezas gordurosas.

Considerando que tanto a superficialidade das reflexões quanto a manipulação das interpretações são correntes em nosso tempo, o que fazer? A resposta está no benefício da dúvida, que, sem nenhuma dúvida, beneficia a quem a tem. Ter dúvidas é sinal de inteligência em pleno mar de certezas medíocres. E o caminho para a boa dúvida está nas perguntas que fazemos e na identificação do lugar de fala de quem emite “certezas” prontas e acabadas. Mais do que tentar implantar o benefício da dúvida nos outros, escrevo para mim mesmo: que eu tenha muitas dúvidas quando analisar o cenário. Que elas me provoquem ao máximo, a fim de que a certeza, se houver, surja incólume na minha interpretação.

O filósofo inglês Francis Bacon disse que a dúvida é a escola da verdade. Malheiros Dias, escritor português, disse ser prudente o homem que sabe venerar, na desconfiança, a suprema sabedoria. Duvide e desconfie. Escolha boas dúvidas e sobre elas construa certezas que sejam retrotestadas por novas dúvidas, em um ciclo permanente de evolução.

Enviado por Murillo de Aragão 22, agosto, 2017 | 16:44

Virtus in medium est

Reforma da Previdência (Foto: Pixabay)

10/08/2017

Blog do Noblat

O secretário de Previdência, Marcelo Caetano, diz que se a Reforma Previdenciária ficar desidratada, não serve. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), diz a mesma coisa. As motivações, contudo, são diferentes.

A equipe econômica  esticou a corda da reforma e cometeu erros básicos, por exemplo, ao retirar as Forças Armadas e a PM da proposta e manter as demais polícias no texto original. Criou uma climão antes do tempo, além de mostrar pouca sensibilidade política. Ou se mantém todos no barco ou se tira todos.

Além do mais, polícia é polícia. Quem lida com o crime e o perigo deve poder contar com uma Previdência específica e adequada às características de suas atividades. E, de ora em diante, que seja idealmente sustentável.

Porém, mesmo depois de o presidente Temer ter dado a palavra de que as Forças Armadas não entrariam na proposta, eis que elas são incluídas – meio que de lado – no texto.

Típica manobrinha da burocracia de gabinete que acha que tudo pode. Entre idas e vindas, terminou saindo.

No momento, o que o time econômico deve fazer é não verbalizar nada além do desejo de assistir o debate da reforma. Não é hora de dizer o que serve e o que não serve.

A motivação é fiscal, mas o debate é, sobretudo, político. E é a política que determinará – para o bem e para o mal – as fronteiras da reforma previdenciária.

Já o deputado Rodrigo Maia, ao defender uma proposta mais abrangente, faz um contraponto em relação aos líderes do Centrão que dizem que não querem votar nada. Maia está certo e deve verbalizar o que acha da questão. Já os líderes tratam de valorizar suas influências.

Como sabemos, o discurso político tudo pode.  Todos sabem que os discursos do contra na base política embutem uma cobrança.

Chega a ser primário que alguns se prestem a dizer que não votam e, nos bastidores, expressam o desejo da reorganização da base como condição sine qua. Até na fome por cargos e verbas, a base deve demonstrar equilíbrio.

Equilíbrio que a ministra Cármen Lúcia demonstra ao propor que o Judiciário não tenha reajustes salariais no ano que vem.

Na situação fiscal em que vivemos, abordar a reforma é um imperativo.

Os líderes do Centrão deveriam estar do lado de Rodrigo Maia em favor da votação. Até mesmo pelo fato de que eles sabem que quanto mais profunda ela puder ser, melhor.

No entanto, sabemos que não é fácil aprovar hoje uma reforma muito abrangente. Mesmo em condições normais, FHC e Lula encontram muitas dificuldades. Paradoxalmente, temos chance de se avançar no tema. Desde que   a melhor solução será a que se pautar pelo equilíbrio.

Enviado por Murillo de Aragão 10, agosto, 2017 | 15:45

PSDB diminui de importância depois da denúncia de Janot

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09/08/2017

O Tempo

O PSDB definiu, na semana passada, que o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) continuará como presidente interino da sigla até dezembro, quando ocorrerá o encontro que escolherá o novo presidente nacional. Como consequência dessa decisão, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) seguirá afastado da presidência tucana.

A manutenção de Tasso como presidente interino agrada ao comando paulista da legenda, que enxerga no senador cearense um aliado interno importante para que os paulistas não apenas retomem o comando nacional do PSDB, mas também indiquem o candidato tucano ao Palácio do Planalto em 2018. Ou seja, o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) ou o prefeito João Doria (PSDB-SP).

Além do apoio do tucanato paulista, Tasso Jereissati tem o respaldo de parcela expressiva da bancada de deputados federais do PSDB, além dos economistas tucanos (Elena Landau, Edmar Bacha, Gustavo Franco e Luiz Roberto Cunha), que na semana passada divulgaram uma carta em favor de sua continuidade como presidente interino.

Ainda que a manutenção de Tasso à frente do PSDB tenha agradado às mais diferentes alas do partido, o clima interno não é bom. Na votação da denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente Michel Temer (PMDB) na Câmara, a bancada tucana rachou. Dos 47 deputados federais do PSDB, 22 votaram a favor de Temer, 21 contrários. Houve quatro ausências.

Da bancada do PSDB de São Paulo, composta por 12 deputados, 11 votaram contra Temer. O único voto favorável ao presidente veio de Bruna Furlan. Já na bancada mineira do PSDB, controlada por Aécio, dos seis deputados do PSDB, cinco votaram a favor de Temer. Eduardo Barbosa esteve ausente.

Ou seja, enquanto a bancada federal do PSDB de São Paulo, bastante influenciada por Alckmin, distancia-se de Temer, a bancada mineira, sob a influência de Aécio, segue ao lado do presidente.

Além do posicionamento em relação ao governo Michel Temer, outro tema que divide o PSDB é a sucessão presidencial de 2018. Alckmin intensifica movimentos (recentemente, reuniu-se com líderes nacionais do DEM e do PSB para discutir 2018) a fim de acelerar a escolha do candidato do PSDB ao Planalto. Já líderes como Aécio, o ex-presidente FHC, o senador José Serra e o prefeito João Doria preferem que a sigla debata 2018 mais adiante.

A tendência é que essa divisão no PSDB prevaleça até dezembro, quando o partido escolherá seu novo presidente nacional. Mesmo que a bancada da Câmara pressione pelo desembarque do governo, a tendência é que o PSDB continue na base, principalmente porque Temer fará o possível para tentar aprovar a reforma da Previdência, uma das bandeiras do PSDB. Além disso, a condução da política econômica do governo é respaldada pelos tucanos.

A unidade do PSDB foi uma das vítimas da denúncia de Rodrigo Janot. Expôs sua incapacidade de tomar uma decisão e seguir com ela. A divisão revelou indefinição e covardia institucional. E, pasmem, nem colocou o partido fora do governo, nem o manteve com o prestígio anterior na base política. Antes da denúncia, eram os tucanos que davam o software para a gestão Temer junto com o documento “A Ponte para o Futuro”, de Moreira Franco. Depois da tensão deflagrada por Rodrigo Janot, o partido encolheu.

Paradoxalmente, a crise ocorre às vésperas de ano eleitoral, quando o partido parece ter João Doria como o mais competitivo candidato do centro político nacional.

Enviado por Murillo de Aragão 10, agosto, 2017 | 15:21

Vai dar praia em 2018

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04/08/2017

Isto É

A cada minuto que passa, as eleições de 2018 estão mais presentes nos cálculos de nossos políticos. O mesmo deve se dar no âmbito da Operação Lava Jato, cujos propósitos extrajudiciais são inequívocos. Entre os mais esclarecidos, poucos têm dúvidas de que os objetivos da força-tarefa vão muito além da punição de criminosos.

Atos e declarações visam a limpar práticas inaceitáveis do mundo político. Assim, caminhamos para um grande conflito em 2018, cujos limites vão além da disputa eleitoral. O que vai estar em jogo em 2018? Basicamente, duas concepções de política. A política de sempre, contaminada por relações espúrias entre governo, sindicatos, burocracia e empresariado; e a política voltada para a cidadania, sem corrupção e clientelismo, com resultados positivos na administração pública e eficiência nos gastos.

Do lado conservador estão quase todos os partidos, independentemente da coloração ideológica, pois, no raso, mesmo com discursos diferentes, quase todos foram mais do que iguais na prática de malfeitos. Até mesmo os partidos que posam de radicais de direita e de esquerda não passam de representantes do que há de mais arcaico no pensamento humano. Assim, a rigor, Bolsonaro e o PSOL transitam no mesmo paradoxo.

O novíssimo ainda não se expressou. Nossa intelligentsia, afinal de contas, não é tão inteligente assim. Adora uma “boca” estatal e verbas públicas. Não consegue produzir o novo. Ainda aguardamos um Dom Sebastião que possa encarnar as esperanças do novo. Em algum momento do futuro próximo, podemos assistir a multidões indo à casa do juiz Sergio Moro para implorar que ele se candidate a presidente.

Para o bem e para o mal, Moro é o limite do nosso novo. O que, cá entre nós, comprova que estamos desidratados em matéria de criatividade. Como Moro candidato é uma incerteza — ele enfrentaria muitas dificuldades pelas barreiras que os partidos tradicionais impõem às novas práticas —, o novo ainda não se apresentou.

Em que pese parte da mídia que deseja criar uma primavera árabe tupiniquim, nada acontece. Isso me lembra a situação vivida por Carlos Lacerda, narrada no magistral livro de Rodrigo Lacerda (República das Abelhas). Desejoso de fazer uma greve de fome para protestar por sua prisão durante o regime militar, Carlos comunicou sua intenção ao irmão, Sergio Lacerda. Ele respondeu dizendo que não o fizesse, afinal estava fazendo um lindo dia e ia dar praia no fim de semana. Ninguém ia ligar para sua greve de fome e para o inútil protesto.

Parece que, mesmo as pesquisas de opinião apontando o desejo pelo novo e pela renovação, o “vai dar praia” no fim de semana paralisa as intenções. Continuaremos a ser um país de muitas iniciativas e poucas “acabativas”?

Enviado por Murillo de Aragão 07, agosto, 2017 | 17:49

Cotidiano enigmático

Enigmá, interrogação, duvida (Foto: Pixabay)

04/07/2017

Blog do Noblat

Devemos acreditar que a sabedoria popular tem raízes profundas na filosofia. As expressões “nem tudo que balança cai” e “nem tudo que reluz é ouro”, por exemplo, podem nos ajudar a enfrentar os enigmas do cotidiano.

Segundo o escritor inglês Alain de Botton, Sócrates achava que não era possível viver sem raciocinar de maneira sistemática sobre os objetivos a serem alcançados. O exemplo que ele utilizava era o dos oleiros e sapateiros, cuja habilidade para esculpir vasos e moldar sapatos não decorreria apenas de sua intuição.

Nietzsche preconizava que o sucesso pressupunha superar o fracasso com muito trabalho. Daí estar presente em sua obra a metáfora alpina sobre sair do plano e subir a montanha para chegar à realização. O que tem a ver com o ditado “nem tudo que balança cai”.

Temos a tendência de opinar sobre questões complexas com base apenas na percepção, no sentimento de pele que o tema possa causar. Em Nietzsche, diz Botton, encontramos a certeza de que muitos sofrem porque não conseguem, de “forma espontânea”, conhecer a fundo os ingredientes da satisfação. A “forma espontânea”, algumas vezes confundida com a intuição, seria a percepção aflorando para explicar aquilo que não sabemos, nem estudamos.

É grande o número dos que não saem de sua zona de conforto – a mediocridade – para evitar o sofrimento, e assim desistem da realização. Encontram conforto nas percepções expressas para explicar o que não sabem por preguiça de adensar suas reflexões.

A expressão popular “nem tudo que reluz é ouro” está associada a esse fenômeno. Ao desprezá-la, intuímos sobre o que não sabemos e caímos em outra armadilha: a vertente do “não é possível” – “Não é possível que fulano, sendo político, não seja ladrão; “Não é possível que a riqueza de sicrano não tenha sido construída sem alguma trapaça”, ouve-se dizer.

A vida é mais complexa do que o bate-pronto das percepções. Segundo Earl Miller, neurocientista do MIT, citado por Daniel J. Levitin, “o cérebro só absorve o mundo em pequenos pedaços”. Outro catedrático, Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, em Irvine, diz que “dez minutos e meio em um projeto não é tempo suficiente para pensar profundamente em coisa alguma”.

Os mais antigos diziam que devemos dormir nos problemas antes de decidir. E isso tem base científica. O sono, de acordo com Matthew Walker (Berkeley) e Robert Stickgold (Harvard), traz três fases importantes: a unificação das informações acumuladas no dia; a assimilação das informações; e a abstração das mesmas. O sono promove a solução de problemas abstratos por meio de inferências.

A intuição salva, principalmente em momentos de perigo. Mas se isso bastasse o mundo seria dominado pelos animais, mais fortes e ágeis que os humanos. Assim, o bate-pronto das percepções não deve presidir o entendimento de problemas graves.

A reflexão que tento provocar refere-se à nossa realidade. Forças extraordinárias estão mudando o estado das coisas no Brasil. Para o bem e para o mal. A percepção a construir deve partir de uma análise reflexiva sobre o momento, as instituições, as leis e sobre o país que queremos.

É preciso levar em conta alguns pontos essenciais, tais como o império da lei, o estado de direito, o princípio do contraditório, a presunção da inocência. Devemos sobretudo considerar que no passado milhares e milhares de pessoas foram torturadas e morreram em defesa dos princípios que aqui menciono. Na dúvida, devemos olhar para a Constituição. Se não nos agrada, vamos à luta para mudá-la.

Enviado por Murillo de Aragão 04, agosto, 2017 | 16:13

Domingo Alzugaray

Domingo Alzugaray, fundador da Editora Três e da revista ISTOÉ (Foto: Divulgação / O Globo)

27/07/2017

Blog do Noblat

O mundo editorial tem tipos inesquecíveis. Há pouco um deles nos deixou: Domingo Alzugaray, fundador da IstoÉ. Argentino de origem basca, veio para o Brasil para trabalhar com os Civita.

Participou do projeto de criação a revista Veja e chegou a diretor comercial da Editora Abril. E, um belo dia, foi atrás de seu sonho, que era ter sua própria editora. Fazer e vender revistas no Brasil é um trabalho insano, tarefa para sonhadores. Domingo transformou seu sonho em realidade.

Fundou a Editora Três e conseguiu prosperar num país que lê pouco, anuncia menos do que deveria na imprensa escrita e cobra os maiores juros do mundo para financiar a atividade privada. Com a IstoÉ, que fundou e, posteriormente,  transformou em revista semanal, ele obteve imenso sucesso.

No período que se seguiu à fundação da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), da qual participei como diretor executivo, estive muitas vezes com Domingo Alzugaray, um dos fundadores da entidade. Tinha uma personalidade marcante, era alto-astral, muito querido pela seus companheiros de editora  e se orgulhava de ser sagitariano.

Tanto na ANER quanto como editor, Alzugaray sempre foi ativo e referência nas muitas lutas travadas pela liberdade de expressão no país. A IstoÉ, ao longo de sua existência, deu inúmeros furos jornalísticos e publicou numerosas matérias de grande impacto na política nacional. Desafiou poderosos e incomodou o establishment político.

Empresarialmente, Alzugaray nunca se acomodou. Mostrou coragem mesmo enfrentando a competição com a Veja, uma das melhores revistas semanais do mundo, e a Exame. Ganhou e perdeu batalhas, mas nunca fugiu do bom combate.

Elaborei na Editora Três, junto com David Fleischer, o Perfil Parlamentar Brasileiro, que trazia os minicurrículos de todos os deputados federais e senadores eleitos em 1990 e saía encartado na IstoÉ. Foi um sucesso. Depois o Perfil foi encadernado e se transformou em livro. Foi referência para quem queria saber sobre os parlamentares eleitos na época.  Domingo foi um entusiasmado apoiador da iniciativa.

Enfim, Domingo Alzugaray foi um dos empreendedores da mídia que deixou uma marca importante no país.  E, talvez, o último nome de uma linhagem que inclui Victor e Roberto Civita, Roberto Marinho, Adolfo Bloch, Mauricio Sirotsky, Alfredo e Sergio Machado, entre alguns outros. Que seu exemplo de ousadia e tenacidade seja lembrado e seguido por muitos outros.

Enviado por Murillo de Aragão 04, agosto, 2017 | 16:11