Os desafios do governo que vão além dos jardins de Brasília

22/03/2017

O Tempo

Como era de se esperar, a lista do procurador geral Rodrigo Janot encaminhada ao Supremo Tribunal Federal com pedidos de abertura de inquérito para políticos citados nas delações da Odebrecht causou imensa repercussão em Brasília. Trata-se de um verdadeiro “barata voa”, e cada segmento reagiu a sua maneira, às vezes de forma coordenada, às vezes de maneira isolada. Mas todas as reações foram apreensivas em relação ao futuro do mundo político brasileiro, há três anos alvo sistemático da operação Lava Jato.

O Congresso Nacional respondeu à divulgação da lista aumentando o tom do debate sobre a reforma política, de modo a nele incluir temas transversais a todo o establishment político, inclusive o PT. Dois deles se destacam: a anistia do caixa 2 nas campanhas eleitorais e a criação do Fundo Eleitoral.

No horizonte do Executivo, além do apoio ao debate sobre a reforma, a geração de boas notícias na esfera econômica deu o tom. O CEO global do Citibank, Michael Corbat, em audiência com o presidente Michel Temer, fez copioso elogio à agenda de reformas do governo. A agência Moody’s elevou a classificação de risco do Brasil de negativo para estável, o que é um ganho frente à tragédia herdada do governo anterior.

O sucesso na concessão de quatro aeroportos neste mês, com resultados bem acima do esperado, também foi uma notícia excepcional. E o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apresentou, finalmente, resultados positivos a respeito do emprego formal, que voltou a crescer após 22 meses de queda. Isso significa, como atestam os indicadores, que os consumidores estão, aos poucos, sendo encorajados a comprar, e os empresários, a produzir nos padrões anteriores.

Numa entrevista dada pela força-tarefa da Lava Jato, o jurista Delton Dallagnol, o mais vocal de seus membros, tratou de atacar as iniciativas de anistia do caixa 2. E a imprensa, por seu lado, acompanhou-o no mesmo diapasão. Editorial de “O Globo” foi contundente contra a iniciativa de perdoar doações eleitorais irregulares. O juiz Sergio Moro, à frente da Lava Jato, gravou um vídeo, divulgado nas redes sociais, num tom acima do adequado a um juiz com tamanhas responsabilidades.

Manifestações relevantes criticando a reforma da Previdência ocorreram nas capitais. Um grupo de parlamentares manifestou-se contra a proposta original do governo, em especial Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado. Tudo dentro do esperado. Assim como a imprecisão das investigações e as notícias sobre irregularidades na operação dos frigoríficos. Parece que nos dias de hoje o verbo “apurar” está sendo esquecido.

Pena que outro escândalo seja pouco notado: a existência de centenas de notícias imprecisas, e mesmo falsas, nos sites de notícias. Pois, nos tempos de hoje, necessitamos de muitas sensações, coisa que a verdade não nos propicia. Por trás dessas supostas notícias está a pequena política, ou seja, o panfleto que, agora com roupa digital, continua causando o mesmo dano à democracia.

Para o governo, o quadro caracteriza-se pela mistura de boas e más notícias e pelo embate dos principais atores políticos do momento em três realidades distintas, mas que se inter-relacionam. São elas: a realidade judicial da Lava Jato; a ansiedade legislativa a respeito da reforma política; e a agenda da retomada econômica.

O dado mais relevante para o Palácio do Planalto, até agora, é o que se refere à recuperação econômica, responsável pela mudança no humor dos cidadãos, perceptível a partir das notícias sobre emprego. Em cada uma das três realidades se desenha um desafio cujas repercussões vão muito além dos bem-cuidados jardins de Brasília.

Enviado por Murillo de Aragão 22, março, 2017 | 15:07